Pesquisas eleitorais: os números não mentem, mas mentirosos usam números.

 Iremos reproduzir um artigo publicado no Jornal da Ciência, publicado em Setembro de 2002, sobre as pesquisas eleitorais. Será que as pesquisas eleitorais captam a vontade do eleitor? Veja e tira suas dúvidas:


Em quem acreditar? Nas pesquisas ou no guia eleitoral?, artigo de José Antônio Aleixo da Silva
'Os números não mentem, mas mentirosos usam números'


José Antônio Aleixo da Silva é professor da UFRPE e secretário regional da SBPC em Pernambuco. Artigo escrito para o 'JC e-mail':

O pensamento estatístico um dia será tão necessário para um eficiente cidadão quanto a habilidade de ler e escrever.

Esta declaração de H. G. Wells, na primeira metade do século passado, é plena de atualidade, principalmente em época de eleições, quando somos bombardeados pelas famosas pesquisas de opinião pública.

Pessoas esperam os resultados das próximas pesquisas para decidir em quem votar, transferindo-se para a estatística a decisão consciente sobre os destinos do país.

Quando os resultados favorecem ao partido político contratante da pesquisa, a Estatística é perfeita. Caso contrário, existem inúmeras razões para se dizer que tudo está errado. Então fica a pergunta: acreditar ou não acreditar na Estatística?

Os principais institutos de pesquisa divulgam metodologias e seus limites de confiança, mas parecem esquecer dos conceitos de amostragem piloto e erro de amostragem.

Em qualquer sistema amostral, a etapa da amostragem piloto ou preliminar é fundamental, na qual se coletam dados em uma amostra prévia, para em função dela que se ter idéia da variabilidade da característica estudada, possibilitando se chegar aos cálculos da suficiência amostral (tamanho da amostra).

Caso o tamanho da amostra seja igual ou inferior ao que se usou na amostragem piloto, esta será considerada definitiva e as inferências podem ser feitas.

Por outro lado, se o tamanho da amostra for superior ao usado na amostragem piloto, há necessidade de se voltar à população para se completar a amostra, com a finalidade de se atingir o erro de amostragem pré-determinado ao nível de probabilidade considerado.

É um procedimento que pode ser repetido várias vezes, dependendo da variabilidade encontrada nas amostras. Isto significa dizer que não existe tamanho padrão de amostra para nenhuma situação.

Definir tamanho de amostra antes do estudo da variabilidade populacional significa, teoricamente, igualar a probabilidade de erros e acertos e isto não é objetivo da Estatística.

Nos resultados divulgados pelos institutos de pesquisa não se faz referência ao erro de amostragem que indica o grau de confiabilidade do sistema amostral, o que é diferente do limite de confiança, embora seja derivado dele. Erro involuntário ou omissão premeditada?

E os famosos erros fixos de 2,8 e 3% para mais e para menos? Se for fixo expressa uma precisão tanto maior quanto maior for a preferência por um determinado candidato.

Considerando uma população de 100 mil eleitores e um limite de erro (fixo) de 3% (3000 votos), um candidato que recebesse 5 mil votos, na realidade ele teria uma determinada probabilidade de estar entre 2 mil e 8 mil votos.

Isto representa um erro de amostragem de 60%. Já um candidato franco favorito que obteve 60 mil votos, ao mesmo nível de probabilidade, estaria entre 57 mil e 63 mil votos, resultando em um erro de amostragem de 5%.

Os cálculos para se chegar a tais conclusões são simples e inquestionáveis. Por que esses números são omitidos?

Recentemente, Márcia Cavallari Nunes Diretora-executiva do Ibope disse, em entrevista a imprensa, que tamanho da amostra não é documento:

'Mais importante é a qualidade da representatividade da amostragem. Ou seja, seu grau de similaridade com todos os grupos sociais e regiões do país em proporção mais próxima possível à da população pesquisada'.

A qualidade da amostra, no entanto, é uma característica associada ao tamanho da amostra em qualquer sistema de amostragem. Assim, a representatividade é função direta da qualidade e do tamanho da amostra. Tamanho de amostra é documento, sim.

Outro problema de ordem estatística está nas metodologias de coletas de dados adotadas pelos principais institutos de pesquisa. Os levantamentos amostrais não são probabilísticos.

Geralmente, a seleção do eleitor é feita pelo entrevistador que fica em um ponto de fluxo de pessoas, com uma relação de cotas a serem atingidas, isto é, tantos eleitores de tal idade, sexo, renda, etc.

Sendo assim, não se pode calcular a probabilidade de que um eleitor seja selecionado para fazer parte da amostra e, conseqüentemente, nem o limite de erro cometido nem o nível de confiança associado.

'Os números não mentem, mas mentirosos usam números'.

Adotar a estatística como instrumento para prognose é absolutamente indicado, mas seu uso inconseqüente pode funcionar como um excelente cabo eleitoral nas mãos dos inescrupulosos manipuladores de números que tentam atingir os eleitores indecisos.

Já observaram quantos resultados de supostos institutos de pesquisa aparecem nos últimos dias que antecedem as eleições?

Cada candidato pode fazer suas pesquisas e divulgá-las até em jornais como matérias pagas. Não existe lei normatizando como devem ser tais pesquisas.

Em matéria publicada em 'O Estado de SP' de 27/7/02, intitulada 'Pesquisas eleitorais' de autoria do Joelmir Beting, discute-se sobre a produção de pesquisas eleitorais e sobre o mau uso que se tem feito delas, no Brasil e no exterior, por especuladores do mercado financeiro.

A questão vai além de inferências sobre chances dos candidatos e pode alterar o setor econômico da nação.

No mesmo artigo, Eduardo Schubert, Presidente da Associação Nacional das Empresas de Pesquisa (Anep), mesmo defendendo a qualidade das pesquisas, diz que 'a especulação financeira, sob certa medida, é virulenta e criminosa'. São os mentirosos usando os números.

Por fim só restam aos eleitores indecisos, duas opções: guiar-se pelas nas pesquisas eleitorais ou avaliar o programa do candidato, que na maioria das vezes, só se toma conhecimento pelas promessas feitas no guia eleitoral.

Mentir em qualquer um dos dois casos não dá cadeia, dá atraso para a nação e depois, arrependimento do eleitor.

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