'Eu vi Lampião', por Mário Gerson Fernandes de Oliveira

'Eu vi Lampião'
Mário Gerson Fernandes de Oliveira, jornalista
O Sítio Serrote fica a 18 quilômetros de Mossoró, no município de Governador de Dix-sept Rosado. A vida lá é calma. Hoje, ao invés dos cangaceiros do passado, o que mais se vê pelas pequenas estradas de barro e areia são os rastros dos carros e motos que passam pelo lugar. Seu Sebastião Crispim de Freitas, de 90 anos, apenas escuta, da varanda da casa, o roncar dos motores e acena com as mãos. Ele reconheceu o motorista, que residiu no lugar e conhece parte da história dos moradores. Seu Sebastião Crispim é mais conhecido na localidade como Padim. Sentado debaixo do alpendre da casa - construída "nas eras de 60!", ainda na forma de casa de taipa - Padim pergunta o motivo da visita e notamos que ele tem, guardada às costas, uma faca: "Mas não é para os cabras de Lampião, é?" Ele sorri. Não espera mais os cangaceiros, que chegaram de surpresa logo cedo, em 13 de junho 1927, na Passagem da Oiticica. "É não, meu filho, essa faca é do trabalho mesmo", ele diz, com voz rouca. Sebastião Crispim é viúvo. Perdeu a esposa há poucos meses, mas tem a companhia, bem perto da sua casa, de uma filha e alguns parentes. Ainda faz tudo de trabalho: planta, acorda cedo, tem umas vaquinhas, já criou uns carneiros, chamados, na região, de '"criação", mas "deram a roubar" e ele deixou.Entre um sorriso e outro, enquanto mostra a casa, seu orgulho, Padim lembra o dia em que, juntamente com outras crianças de sua idade, viu o cangaceiro. "Mas vocês querem saber disso mesmo? Pois bem. Isso aconteceu na Passagem das Oiticicas, seis meninos, de 12 anos pra baixo. Ele chegou na porta do meio e disse: eu quero dinheiro, quero dinheiro! Tinha um banquinho lá e nós ficamos sentados. Mamãe disse que não tinha dinheiro e ele disse que ia embora, mas que o resto do cangaço vinha atrás. Quando os outros chegaram, entraram e tomaram conta da casa. Reviraram tudo. Mamãe, Francisca Gregório das Chagas, assistiu tudo; juntamente com uma tia minha ficaram esperando. Nós ficamos debaixo do tamarindo do quintal. Minha mãe disse: não carregue tudo, não, que meu pai está doente. Deixe um pouco pra ele. E eles prometeram deixar. A minha avó chorou muito e foi gritada por um deles, que disse que não queria choro nenhum. No fim eles deixaram 40 mil réis e deram à velha minha avó. À época, o velho tinha guardado uns cinco contos de réis, que eles levaram quase tudo. Deixaram só 40 mil réis", relembra.Um outro momento da passagem do bando foi na casa da irmã da mãe de Padim. "Marcelina Filgueira descompôs os cangaceiros e apanhou muito na Passagem de Oiticica. Ela apanhou tanto que passou muito tempo usando uma roupa fininha, toda manchada. Os ombros eram todos roxos", diz Padim.'Ninguém nunca me perguntou sobre isso. Os mais novos daqui não querem saber' Até agora, de acordo com Padim, ninguém quer saber sobre a história. "Meus netos nem se interessam por isso. Enviuvei e fiquei aqui, na casa", fala.Sebastião Crispim lembra também que à época outras pessoas foram assaltadas pelo bando. "Antônio Necleto também foi preso. Já na bodega de João Justino, um bodegueiro velho daqui da região, eles beberam e comeram. Depois, levaram Antônio Necleto e pediram 150 mil réis pra libertar ele. Esse Antônio Necleto, eu tenho pra mim, morreu com mais de 100 anos", diz.Hoje, aos 90 anos, Sebastião Crispim, o Padim, diz que muitas pessoas não perguntam sobre isso. "Eu gosto é dessa vida aqui mesmo, calma, plantando minhas bananeiras. Ainda trabalho. Minha casa é essa, simples mesmo. Aqui eu tenho umas cabecinhas de gado e pronto", resume, na forma mais sertaneja, a vida que sempre teve: de agricultor e criador. "Sempre fui isso a vida toda", fala, com um sorriso de satisfação.
HISTORIADOR DESTACA HERÓIS - Segundo o pesquisador Geraldo Maia, em "Algumas considerações sobre os Heróis da Resistência", a cidade recebeu o bando num dia de segunda-feira. "Mossoró foi invadida por um grupo de cangaceiros chefiados pelo famoso Virgulino Ferreira da Silva, vulgo Lampião. Mossoró, no entanto, havia se preparado para esse confronto, resultando no saldo funesto de um cangaceiro morto, outro que foi preso e posteriormente "justiçado" pela polícia, além de outros cangaceiros feridos, ao que consta, mas sem comprovação de baixas. Do lado dos defensores da cidade, nenhum ferimento: Vitória total", comenta. Além dos que viram o bando, e de tantos outros que fugiram, alguns personagens ficaram na história daquele fato histórico. Hoje os personagens "que participaram ativamente do combate foram homenageados como Heróis da Resistência e tiveram seus nomes perpetuados em placa de bronze e nos livros de História, numa ação louvável, pois todos aqueles arriscaram a própria vida em luta com experientes malfeitores", frisa.

Nenhum comentário

'; (function() { var dsq = document.createElement('script'); dsq.type = 'text/javascript'; dsq.async = true; dsq.src = '//' + disqus_shortname + '.disqus.com/embed.js'; (document.getElementsByTagName('head')[0] || document.getElementsByTagName('body')[0]).appendChild(dsq); })();
Tecnologia do Blogger.