O “cheiro do queijo”: Artifício da covardia e da falsidade
O “cheiro do queijo”: Artifício da covardia e da falsidade
(*) José Romero Araújo Cardoso
A mais sórdida e deplorável manifestação ignominiosa de um ser humano, se é que se pode chamar de tal, é colocar o famigerado “cheiro do queijo” em uma pessoa, pois quando isso acontece rompem-se laços de confiança, de contrato social indispensável à convivência harmônica em sociedade.
Não é à toa que a estratégia do “cheiro do queijo” é usualmente utilizada por pistoleiros ou por pessoas detestáveis que intuem vingança, tendo em vista que a premissa maior que move esse tipo de tática perniciosa exige que haja firmamento de laços de amizade entre as partes envolvidas, para depois serem lançadas as bases da traição, da infâmia ignominiosa e aviltante à dignidade humana.
Em minha família há caso de parente martirizado por “cheiro do queijo”, pois no dia quatro de setembro de 1977, primo de nome Marconi Cruz de Lacerda, natural de São José de Piranhas (PB), foi atraído por falsos “amigos” a uma tocaia em um açude em Patu (RN), sendo morto de forma covarde pelas pessoas nas quais tanto acreditava ser de confiança.
Quando não é utilizado com o intuito de matar, o “cheiro do queijo” tem o poder de minar psicologicamente a pessoa atingida, fragilizando-a de forma extraordinária, pois artifício e arma da mentira e da falsidade, essa estratégia de pessoas sem formação, dotadas de espíritos mesquinhos e baixos, desprovidas do mínimo essencial de uma necessária educação, tem profundo poder de transtornar, gerando ódio violento a quem é submetido a mais deplorável de todas as manifestações da mentira e da falsidade.
Querido e inesquecível amigo, de nome William, formado em Administração de Empresas (UFPB), natural de Sousa (PB), foi vítima dessa infâmia. Comprava e revendia automóveis em João Pessoa (PB), quando um dia chegaram algumas almas sebosas no seu estabelecimento comercial, dizendo estar interessadas em adquirir veículo. Quando meu amigo decidiu-se sair com os canalhas, para mostrar o desempenho do veículo, foi surpreendido pelo “cheiro do queijo”, sendo assassinado no Cabo Branco.
Sertanejo como eu, com os mesmos códigos de honra e de conduta, logo nos tornamos grandes amigos. Estudamos no Colégio Pré-Universitário (CPU), em João Pessoa, nos anos de 1985 e 1986. Depois fomos contemporâneos na Universidade Federal da Paraíba (UFPB). O sorriso franco e aberto de William é a lembrança mais forte e presente que guardo do saudoso e inesquecível amigo.
No filme “Fogo: O salário da Morte” (Pombal, 1970), Linduarte Noronha inseriu a covardia do “cheiro do queijo” através da traição patrocinada pelo contato do pistoleiro interpretado por W. J. Solha, quando este é atraído para um encontro na calada da noite e lá se depara com uma tocaia formada por “colegas da profissão”. O filme “Fogo: O salário da morte” é o primeiro longa-metragem de ficção genuinamente paraibano, estando completando quarenta anos de sua produção e filmagem em 2010.
O “cheiro do queijo” era uma técnica useira e vezeira das guerrilhas do cangaço, sendo profusamente utilizada por Lampião e seus sequazes para matar desafetos ou para atrair incautos soldados volantes que por inexperiência eram ludibriados pelos bandoleiros das caatingas. Ignácio Loyola de Medeiros, o famigerado soldado desertor da Polícia Militar do Estado da Paraíba, natural de Santa Luzia do Sabugy, conhecido no bando pela alcunha de “Jurema”, era especialista nisso, sendo o responsável por diversas mortes de volantes paraibanos no célebre combate de Serrote Preto, em Alagoas, no ano de 1925.
A quebra da confiança, da estima e do apreço é viabilizada pelo “cheiro do queijo”, pois nada mais ofensivo ao psicológico do ser humano se vivo ficar após ser submetido ao repugnante tratamento de choque promovido por pessoas que não evoluíram espiritualmente, pois cevar alguém para depois destilar ira e ódio, diversas vezes gratuitos, atesta manifestação irrefutável de desvio de conduta inaceitável e deprimente.
Em uma época não muito distante era muito comum alguns fazendeiros contratarem humildes trabalhadores, retirantes das secas e sofredores de toda espécie para realizar determinadas tarefas temporárias. Depois, friamente, de forma covarde e calculista, atraíam para a morte essas pessoas simples e humildes, através do “cheiro do queijo”. A prática foi disseminada de forma escandalosa por todas as partes, pois a existência de covas secretas espalhadas pelo Brasil são registros abomináveis de execuções sumárias, devido negativa em pagar dívidas aos que derramavam suor para fazer produzir o chão que deveria ser de todos.
Imunda e escandalosa, a utilização do “cheiro do queijo” define a mais triste personalidade doentia dos covardes que acham normal que a falsidade seja apresentada como a coisa mais natural da face da terra.
(*) José Romero Araújo Cardoso. Geógrafo. Professor da UERN.
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